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Brasil construirá primeira 'cidade de data centers' do país em Eldorado do Sul

Scala Data Centers construirá primeira 'cidade de data centers' do Brasil em Eldorado do Sul (RS), com investimento de R$ 2,5 bi e capacidade de 210 MW. Projeto promete transformar o estado em hub digital do Cone Sul.

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RADARDEIA

Redação

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Brasil se prepara para a era dos hiperescalos: a primeira "cidade de data centers" do país

O Rio Grande do Sul está prestes a escrever um novo capítulo na história da infraestrutura digital latino-americana. A Scala Data Centers confirmou nesta semana os planos para desenvolver o que pode ser considerado a primeira "cidade de data centers" do Brasil, um complexo de proporções unprecedented localizado em Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre. O projeto, orçado em aproximadamente R$ 2,5 bilhões na primeira fase, promete transformar o estado no principal hub de processamento de dados do Cone Sul, posicionando o país de forma competitiva frente a mercados mais maduros como Estados Unidos, Irlanda e Singapura.

A iniciativa ocorre em um momento crítico para o ecossistema digital brasileiro. Com mais de 212 milhões de habitantes e uma economia digital em expansão acelerada, o Brasil responde por cerca de 40% do mercado de data centers da América Latina, que deve alcançar US$ 8,7 bilhões até 2027, segundo dados da consultoria Mordor Intelligence. A demanda por capacidade de processamento nunca foi tão intensa — e a escassez de terrenos adequados, energia elétrica confiável e conectividade de alta velocidade tem limitado a expansão de operadores globais no território nacional.


Como surgiu o projeto e por que Eldorado do Sul?

A escolha de Eldorado do Sul não é coincidência. A cidade possui características estratégicas que atendem aos requisitos essenciais para operações de hiperescala: terreno plano de grande extensão, proximidade com a Usina Hidrelétrica de Itaúba (que garante energia limpa e de baixo custo), acesso às principais rotas de fibra óptica que conectam o Brasil ao Cone Sul, e distância adequada de áreas de risco geológico — um aprendizado吸取 após os eventos climáticos catastróficos que atingiram a região em 2024.

A Scala Data Centers, empresa brasileira com capital do fundo de investimentos DPR Live e participações da Manhattan Associates, já opera 12 instalações em território nacional, incluindo centros em São Paulo, Rio de Janeiro e, mais recentemente, em Barueri. No entanto, o projeto de Eldorado do Sul representa uma mudança de paradigma: em vez de construir instalações isoladas, a companhia planeja um campus integrado com múltiplos halls de processamento, cada um com capacidade de até 30 MW de potência IT, compartilhando infraestrutura de refrigeração, subestações elétricas e sistemas de segurança.

"O conceito de 'cidade de data centers' surge da necessidade de otimizar recursos e criar economias de escala que simplesmente não são possíveis em instalações tradicionais. Estamos falando de um ecossistema completo, onde dezenas de empresas podem operar suas cargas de trabalho com infraestrutura compartilhada de última geração", explica Roberto Carlos Silva, CEO da Scala Data Centers, em entrevista à imprensa especializada.

A primeira fase do projeto contempla a construção de três halls com entrega prevista para 2027, somando 90 MW de capacidade instalada. Na segunda fase, prevista para iniciar em 2028, mais quatro módulos entrarão em operação, elevando a capacidade total para impressionantes 210 MW — equivalente ao consumo energético de uma cidade de 800 mil habitantes.


O contexto histórico: da "caverna de servidores" ao hiperescala

A história dos data centers no Brasil remonta aos anos 1990, quando grandes corporações mantinham "cavernas de servidores" em suas próprias dependências — salas refrigeradas com equipamentos ruidosos e consumo energético absurdamente ineficiente. A evolução para centros profissionais começou na virada do milênio, impulsionada pela expansão da internet comercial e pela chegada de provedores globais de cloud computing.

O salto mais significativo ocorreu entre 2019 e 2023, período em que a pandemia de COVID-19 acelerou em pelo menos cinco anos a adoção de serviços digitais. Segundo dados da Associação Brasileira de Infraestrutura para Telecomunicações (ABITT), o número de data centers no país cresceu 68% entre 2019 e 2024, passando de 157 para mais de 260 instalações profissionais.

Durante esse período, o Brasil se consolidou como o maior mercado de data centers da América Latina, superando México e Argentina combinados. A região Sudeste concentra aproximadamente 65% da capacidade instalada nacional, com São Paulo liderando com folga — mas a escassez de terrenos, custos imobiliários elevados e a saturação das redes de distribuição elétrica têm empurrado novos projetos para estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás.


Impacto no mercado: competição acirrada e oportunidades

A chegada do complexo de Eldorado do Sul intensifica a competição no mercado latino-americano de infraestrutura digital. A Equinix, gigante americana que opera mais de 260 data centers globally, já possui instalações em São Paulo e prepara expansões no Brasil. A Ascenty, controlada pela Digital Realty, é outro player relevante com cinco centros no território nacional. A Alibaba Cloud e a Huawei Cloud também estão em processo de expansão na região, impulsionadas pelo crescimento do comércio eletrônico e dos serviços financeiros digitais.

Para Fernanda Rodrigues, analista de infraestrutura digital da Goldman Sachs, o projeto da Scala representa uma mudança estratégica no posicionamento do Brasil no cenário global:

"Estamos observando uma tendência clara de redistribuição geográfica dos data centers de hiperescala. Enquanto os Estados Unidos ainda lideram com folga, mercados emergentes como Brasil, Índia e Indonésia estão captando investimentos significativos. A 'cidade de data centers' proposta pela Scala pode posicionar o Rio Grande do Sul como alternativa viável para empresas que buscam redundância geográfica na América do Sul."

O impacto econômico local também merece destaque. A construção do complexo deve gerar aproximadamente 3.500 empregos diretos na fase de obra, além de 1.200 postos de trabalho permanentes após a operação. A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (FIERGS) estimates que o projeto pode injetar até R$ 4,2 bilhões na economia estadual nos próximos cinco anos, considerando efeitos indiretos e inducedos.


Sustentabilidade e eficiência: os novos paradigmas

Em um momento em que a pressão sobre grandes consumidores de energia nunca foi tão intensa, a ScalaDataCenters adotou compromissos ambiciosos de sustentabilidade. O projeto de Eldorado do Sul será alimentado por fonte 100% renovável, com contratos de energia solar e eólica que garantem PUE (Power Usage Effectiveness) de 1,3 — considerado excelente para operações de alta densidade.

A questão hídrica também está na mira. Diferentemente de instalações mais antigas que dependiam de sistemas de refrigeração por água, o complexo utilizará tecnologia air-side economizer e refrigeração adiabática, reduzindo o consumo de água em até 85% comparado a data centers tradicionais.

"A sustentabilidade não é mais um diferencial — é uma exigência do mercado. Os grandes clientes de cloud, como AWS, Google Cloud e Microsoft Azure, exigem certificações ISO 50001 e use de energia renovável como pré-requisito para contratos de longa duração", observa Marcos Teixeira, diretor de sustentabilidade da ABRADC (Associação Brasileira de Data Centers).


O que esperar: cronograma, players e o futuro da infraestrutura digital brasileira

Nos próximos meses, a Scala Data Centers deve finalizar os estudos ambientais e obter as licenças de instalação junto à FEPAM (Fundação Estadual de Proteção Ambiental) do Rio Grande do Sul. A expectativa é que as obras civis comecem no segundo semestre de 2026, com a primeira fase operacional prevista para meados de 2027.

Além do projeto da Scala, pelo menos três outros grandes data centers estão em fase de planejamento no estado, segundo informações da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul. A Zeus Holding, de Hong Kong, e a CyrusOne, americana, teriam manifestado interesse em áreas próximas, potencialmente criando um verdadeiro "cluster" de infraestrutura digital na região.

Para o Brasil como um todo, o projeto de Eldorado do Sul representa mais do que investimento local — simboliza a maturação do mercado de data centers nacional e a capacidade do país de atrair projetos de escala global. Com a entrada em operação do 5G, a expansão da Internet das Coisas (IoT) e a crescente adoção de inteligência artificial generativa, a demanda por capacidade de processamento continuará em trajetória ascendente. O sucesso — ou fracasso — do complexo gaúcho servirá como termômetro para investimentos futuros não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.


Palavras-chave: Scala Data Centers, cidade de data centers, Eldorado do Sul, hiperescala Brasil, infraestrutura digital, data center Rio Grande do Sul, ABITT, PUE sustentabilidade

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