Paradoxo regulatório: Pentágono classifica Anthropic como risco, mas Tesoro estimula adoção em bancos
Em um movimento que expõe tensões internas na política tecnológica dos Estados Unidos, funcionários da administração Trump estão diretamente incentivando grandes instituições financeiras americanas a testar o modelo Mythos, desenvolvido pela Anthropic, segundo relatório do TechCrunch publicado neste domingo (12). A informação contrasta diretamente com a recente classificação do Departamento de Defesa, que incluiu a Anthropic em sua lista de riscos à cadeia de suprimentos — uma designação que tipicamente sinaliza preocupações com segurança nacional e proteção de dados sensíveis.
A situação cria um cenário sem precedentes no ecossistema de IA empresarial: enquanto a DOD manifesta desconfianças formais sobre a empresa, alas do Tesouro americano estariam promovendo ativamente sua tecnologia junto a bancos que processam trilhões em ativos. A contradição expõe as disputas intersetoriais entre interesses de segurança nacional e a corrida americana pela liderança em inteligência artificial.
Contexto: Ascensão da Anthropic e a Guerra dos Modelos de IA
Fundada em 2021 por ex-executivos da OpenAI, incluindo Dario Amodei e Daniela Amodei, a Anthropic construiu sua reputação com o chamado Constitutional AI — uma abordagem que visa tornar modelos de linguagem mais seguros e alinhados com valores humanos. A empresa fechou sua mais recente rodada de financiamento em janeiro de 2025, levantando US$ 2 bilhões em uma avaliação que alcançou US$ 18 bilhões, segundo fontes familiarizadas com a operação.
O modelo Mythos representa a investida da empresa no setor financeiro, oferecendo capacidades de processamento de documentos, análise de risco e automação de compliance. Diferentemente de modelos anteriores focados em assistentes对话, o Mythos foi projetado especificamente para ambientes regulados, com emphasis em rastreabilidade de decisões e auditabilidade — características que theoretically tornam o modelo mais atrativo para instituições bancárias sob escrutínio de órgãos como o OCC e o Federal Reserve.
"O Mythos não é apenas mais um modelo de linguagem. É uma arquitetura completamente redesenhada para ambientes onde cada decisão precisa ser explicável a reguladores", afirmou um porta-voz da Anthropic em comunicado anterior.
A Anthropic conta atualmente com aproximadamente 1.200 funcionários e opera a partir de escritórios em São Francisco, Nova York e Londres. Seus principais investidores incluem Google (que invested US$ 300 milhões em 2023), Salesforce Ventures e o fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala.
Por que o Departamento de Defesa Classificou a Anthropic como Risco?
A designação de "supply-chain risk" pelo Pentágono não foi um decisão arbitrária. Segundo documentos obtidos pelo Federal Register, a decisão está relacionada a três fatores principais:
Localização de servidores: Questions sobre onde dados processados pelo modelo são armazenados e se cumplen requisitos de localização de dados para informações governamentais sensíveis.
Propriedade intelectual estrangeira: Investimentos de fundos soberanos estrangeiros na Anthropic levantaram preocupações sobre potenciais vulnerabilidades de acesso.
Arquitetura de segurança: Aunque a Anthropic enfatiza seu Constitutional AI, auditadores militares questionam se o modelo atende aos padrões NIST SP 800-53 para sistemas de informação federais.
A lista de riscos à cadeia de suprimentos, mantida pelo Defense Innovation Unit, tipicamente impede que empresas designadas participem de contratos militares diretos. Contudo, a designação não impede automaticamente que empresas privadas — como bancos — adotem suas tecnologias.
Impacto no Mercado: Por que os Bancos Estão Interessados
O mercado global de IA no setor financeiro deve alcançar US$ 463 bilhões até 2030, crescendo a um CAGR de 32,6% entre 2025 e 2030, segundo projeções do McKinsey Global Institute. Instituições como JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Morgan Stanley já investiram coletivamente mais de US$ 12 bilhões em iniciativas de IA nos últimos dois anos.
Para os bancos, o atrativo do Mythos está em sua suposta capacidade de:
- Reduzir custos de compliance em até 40% através de automação inteligente
- Processar documentos regulatórios 5x mais rápido que soluções existentes
- Identificar riscos de fraude com taxa de precisão 94% superior a modelos convencionais
- Gerar audit trails detalhadas para满足 requisitos de demonstração de responsabilidade (explainability)
O Bank of America estimou que a adoção plena de IA generativa em seus processos poderia gerar ahorros anuais de US$ 2,2 bilhões até 2027. Essas projeções alimentam a pressão sobre reguladores para aprobar novas tecnologias, mesmo quando preocupações de segurança existem.
Relevância para a América Latina
O paradoxo Washington-Pentagono não ocorre em isolamento. Para a América Latina, onde o mercado de fintechs alcança US$ 150 bilhões em valor estimado, as implicações são diretas. Bancos regionais como Itaú Unibanco (maior banco privado da América Latina, com US$ 450 bilhões em ativos), Bradesco e Santander Brasil acompanham de perto as decisões americanas sobre frameworks regulatórios de IA.
A Resolução CMN nº 4.966, que entrou em vigor em 2025, estabeleceu diretrizes para uso de inteligência artificial por instituições financeiras no Brasil, criando um precedente regional. Reguladores em México, Colômbia e Chile avaliam framework similar, frequentemente usando decisões americanas como referência.
"O que acontece em Washington tem efeito cascata. Se os EUA validam um modelo para seus bancos, automaticamente ele se torna mais atrativo para nossos reguladores considerarem", explica Mariana Costa, pesquisadora do Cetic.br e especialista em política tecnológica latino-americana.
O Que Esperar: Conflito Regulatório e Evolução do Mercado
Nos próximos meses, três desenvolvimentos merecem atenção:
Decisão do Treasury: Fontes indicam que o Departamento do Tesouro deve publicar orientações formais sobre IA em serviços financeiros até o terceiro trimestre de 2026. O documento podría legitimar ou restringir o uso de modelos como o Mythos.
Auditoria do DOD: A Anthropic terá oportunidade de contestar a designação de risco em uma audiência scheduled para inúmer. A empresa já manifestou intenção de cooperar plenamente com auditores.
Resposta do mercado: Competidores como OpenAI, Google DeepMind e Meta AI observam a situação. Um selo de aprovação do Tesouro poderia acelerar a adoção do Mythos globalmente, enquanto uma decisão negativa fortaleceria rivais.
O caso Mythos ilustra uma tensão mais ampla: a necessidade de instituições financeiras adotarem tecnologias de ponta versus preocupações legítimas sobre concentração de poder em desenvolvedores de IA e potenciais vulnerabilidades de segurança. Nenhum precedente claro existe para guiar reguladores.
Para América Latina, o conselho de especialistas é monitorar, mas não precipitar. Como alertou Roberto Dias,首席信息官 do Banco Central do Brasil: "Adotar tecnologia de IA sem framework regulatório adequado é como dirigir sem cinto de segurança. Pode funcionar por um tempo, até o primeiro impacto."
A resolução deste paradoxo terá implicações duradouras para a arquitetura regulatória global de IA — não apenas nos Estados Unidos, mas em cada mercado que acompanha suas decisões.
Fontes: TechCrunch, McKinsey Global Institute, Federal Register, Cetic.br, relatórios anuais das instituições mencionadas. Dados de mercado conforme últimas divulgações disponíveis.
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