O magnata acusou a empresa de abandonar sua missão original de inteligência artificial beneficente durante depoimento juramentado
Elon Musk depôs pela primeira vez sob juramento nesta terça-feira, dia 28 de abril de 2026, no tribunal de São Francisco onde trava uma batalha legal contra a OpenAI — a empresa que ele próprio ajudou a fundar em 2015. O depoimento, amplamente esperado pela indústria de tecnologia, reprisa uma narrativa que Musk construiu ao longo de anos em entrevistas e no bestseller de Walter Isaacson: a de que Sam Altman e outros executivos traíram a missão fundacional da organização de desenvolver inteligência artificial para beneficiar a humanidade, não para maximizar lucros de acionistas.
A acusação central gira em torno da transição da OpenAI, originalmente registrada como organização sem fins lucrativos, para uma estrutura de "capped profit" em 2019 — permitindo que investidores como a Microsoft obtivessem retornos limitados, mas substanciais. Musk argumenta que essa transformação representa uma traição aos princípios que ele ajudou a estabelecer e financiou com aproximadamente US$ 45 milhões nos primeiros anos.
As alegações sob juramento: uma história recontada com força legal
Durante mais de quatro horas de depoimento, Musk reiterouclaims já conhecidos publicamente, mas赋予了-os agora de peso legal diferente. Segundo ele, Altman "nunca demonstrou interesse genuíno na missão" de segurança em IA nos primeiros anos da empresa, preferindo priorizar o crescimento acelerado do modelo GPT e a atração de investimentos corporativos.
"Eu acreditava que estávamos construindo algo diferente — uma alternativa àsbig techs, governada por transparência e pelo bem comum. O que vejo hoje é uma empresa que abandonou seus princípios em troca de avaliações bilionárias."
Musk vs. Altman: a cronologia de uma ruptura
- 2015: Fundação da OpenAI por Musk, Altman, Greg Brockman e Ilya Sutskever — missão declarada como desenvolvimento de IA segura para benefícios humanidade
- 2018: Musk renuncia ao conselho após conflitos sobre direção estratégica e potencial conflito com Tesla (desenvolvimento de Full Self-Driving)
- 2019: Transformação em "capped profit" (LP) com investimento de US$ 1 bilhão da Microsoft
- 2023: Lançamento do ChatGPT dispara adoção massiva — 100 milhões de usuários em dois meses
- 2024: Musk processo a OpenAI por violação de contrato e missão; empresa nega irregularidades
- 2025: Microsoft expande investimento para US$ 13 bilhões totais; OpenAI alcança valuation de US$ 157 bilhões
- 2026: Julgamento começa com testemunho de Musk
A equipe jurídica da OpenAI, por sua vez, argumenta que a estrutura de capped profit foi necessária para competir com Google DeepMind e Meta em um mercado que exigia investimentos de bilhões de dólares anuais em computação e talentos — algo impossível com financiamento puramente filantrópico.
Impacto no mercado: o que está em jogo para a indústria de IA
O julgamento tem implicações que transcendem a disputa pessoal entre Musk e Altman. Analistas jurídicos apontam que uma decisão desfavorável à OpenAI poderia estabelecer precedente significativo sobre como organizações sem fins lucrativos podem fazer transição para estruturas comerciais — um modelo cada vez mais comum no ecossistema de startups de IA.
Números que contextualizam a batalha:
- Receita estimada da OpenAI em 2025: US$ 3,4 bilhões (crescimento de 340% vs. 2024)
- Custo operacional mensal: aproximadamente US$ 700 milhões em computação e pessoal
- Investimento total da Microsoft: US$ 13 bilhões em infraestrutura e licenciamento
- Última rodada de financiamento: US$ 40 bilhões em valuation de US$ 300 bilhões
- Gasto global com IA generativa em 2025: US$ 280 bilhões (IDC)
Para a América Latina, o caso carrega relevância direta. Empresas como Stone, Nubank e Mercado Libre investiram significativamente em integrações com APIs da OpenAI, e a continuidade dessas parcerias depende parcialmente da percepção de estabilidade corporativa da empresa. "Qualquer dúvida sobre a governança da OpenAI se traduz em risco operacional para milhares de empresas LATAM que dependem de seus modelos," explica Mariana Santos, analista de IA da Goldman Sachs em São Paulo.
O cenário competitivo intensifica as tensões:
- Google (Gemini) investiu US$ 12 bilhões em IA em 2025
- Meta abriu seu modelo Llama 4 com licenciamento permissivo, desafiando o modelo fechado da OpenAI
- xAI de Musk levantou US$ 6 bilhões em rodada recente, avaliada em US$ 50 bilhões
- Anthropic (Claude) captou US$ 2 bilhões, com foco em segurança e alinhamento
O que esperar: veredito, consequências e próximos passos
O julgamento deve se estender por três a quatro semanas, com testemunhas adicionais incluindo executivos da Microsoft e membros originais do conselho da OpenAI. Analistas preveem que um acordo extrajudicial permanece possível, embora Musk tenha sinalizado interesse em levar o caso até o fim.
Cenários prováveis:
- Vitória de Musk: A OpenAI seria forçada a reestruturar governança, potencialmente abrindo mão de controle da Microsoft — o que poderia decelerar seus planos de IPO
- Vitória da OpenAI: A empresa consolida modelo híbrido e prossegue com oferta pública prevista para 2027
- Acordo: Termos confidenciais com obrigações de transparência reforçadas
Para o ecossistema de IA na América Latina, o veredito influenciará como reguladores como o Marco Civil brasileiro e a Ley de IA da Argentina tratarão organizações que transitam entre estruturas sem fins lucrativos e comerciais. "Estamos observando um caso que pode definir os padrões de governança de IA em jurisdições onde a legislação ainda está em formação," afirma Dra. Carolina Vásquez, professora de direito digital na USP.
A batalha legal também reacende debates sobre a concentração de poder em empresas de IA. Com trêsbig techs (Microsoft, Google, Meta) controlando a infraestrutura computacional que alimenta a maioria dos modelos, Musk argumenta que a OpenAI deveria representar um contraponto — não outro player dominado por interesses corporativos.
O próximo capítulo será escrito nas próximas semanas, quando testemunhas da Microsoft deverão depor sobre as negociações que resultaram no investimento bilionário que transformou a OpenAI de experimento filantrópico em corporação avaliada em quase US$ 300 bilhões.




