Pentágono acelera desenvolvimento de alternativas à Anthropic em meio a rusga estratégica
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos está desenvolvendo ativamente alternativas aos modelos de inteligência artificial da Anthropic, segundo relatório publicado nesta segunda-feira (17). A decisão representa uma inflexão significativa na relação entre a empresa de IA e o governo americano, após o que fontes do setor descrevem como uma "ruptura dramática" entre as partes no início de 2025.
AANI (Agência de Avanzada Research Projects), braço de inovação do Pentágono, teria iniciado conversas com pelo menos três fornecedores de IA generativa alternativos, incluindo a xAI de Elon Musk e a Mistral AI europeia, de acordo com informações obtidas pelo TechCrunch. O movimento sinaliza que a parceria entre a Anthropic e as forças armadas americanas, que chegou a ser especulada em 2024, está oficialmente encerrada.
Contexto histórico: como chegamos aqui
A Anthropic, fundada em 2021 por pesquisadores dissidentes da OpenAI — incluindo Daniela Amodei, Dario Amodei e Tom Brown —, rapidamente se posicionou como a empresa de IA mais alinhada ao que analysts chamam de "AI safety". A empresa levantou mais de US$ 7,3 bilhões em funding até o final de 2025, com valuations que atingiram US$ 60 bilhões na rodada série E liderada pela Menlo Ventures em setembro de 2025.
Os modelos Claude — especialmente o Claude 3.5 Sonnet e o mais recente Claude 4 — conquistaram adoção massiva no setor corporativo. A API da Anthropic processa atualmente mais de 500 milhões de requisições diárias, segundo dados da própria empresa, com clientes que incluem metade das empresas da Fortune 500.
No entanto, a relação com o Pentágono sempre foi tumultuada. Em 2023, a Anthropic anunciou uma parceria limitada com a IBM para fins de defesa, mas esclareceu que não desenvolveria sistemas de weaponry. Em meados de 2024, negociações avançadas para um contrato de IA de múltiplos bilhões com o DoD foram abruptamente interrompidas — fontes indicam que a decisão partiu da própria Anthropic, que teria determinado que seus modelos não poderiam ser utilizados para "kill chains" ou sistemas autônomos de armamento.
"A decisão da Anthropic de não servir ao Pentágono representa um cálculo de mercado diferente: a empresa acredita que pode perder mais em reputação com o públicoprogesso do que ganho em контракт", explica Carlos Mendoza, analista sênior da consultoria LatAm Tech Insights.
O que o Pentágono busca
O programa alternativo, internally denominado "Project Camelot" (nome não confirmado oficialmente), visa desenvolver ou adquirir modelos de linguagem que possam ser integrados a sistemas de defesa sem as restrições éticas impostas pela Anthropic.
De acordo com o relatório, os requisitos incluem:
- Capacidade de fine-tuning para dadosclassificados
- Processamento on-premise — sem dependência de APIs externas
- Compliance total com frameworks de uso militar
- Latência mínima para aplicações de tempo real
- Suporte a múltiplas línguas para operações internacionais
A xAI, de Elon Musk, emerged como a favorita inicial. A Grok-3, lançada em dezembro de 2025, demonstrou capacidades de raciocínio que, segundo benchmarks independentes, rivalizam com o Claude 4 em tarefas técnicas. A empresa de Musk já possui contratos com a SpaceX e outras entidades governamentais, e seu posicionamento menos restritivo regarding military applications torna-a mais palatable para o DoD.
A Mistral AI, por sua vez, representa a opção europeia. Com sede em Paris e financiamento de mais de US$ 1,1 bilhão, a empresa desenvolveu o Mistral Large 2, posicionado como alternativa open-weights ao GPT-4. A questão da soberania de dados — crucial para aliados europeus da NATO — pode favorecer a empresa no processo.
Implicações para o mercado e a América Latina
O episódio revela uma cisão profunda no ecossistema de IA: de um lado, empresas como Anthropic e, em menor grau, a OpenAI (que mantém contratos limitados com o Pentágono via Microsoft) adotam posições mais conservadoras; de outro, players como xAI, Meta (com Llama) e startups menores veem o mercado de defesa como uma oportunidade bilionária.
O mercado global de IA para defesa foi avaliado em US$ 8,5 bilhões em 2025 e deve atingir US$ 38 bilhões até 2030, segundo projeções da Gartner. O Pentágono alone deverá gastar US$ 18 bilhões em IA e machine learning no ano fiscal 2027, de acordo com documentos orçamentários obtidos pelo Washington Post.
Para a América Latina, as implicações são indiretas mas significativas:
Soberania digital: Países como Brasil, México e Chile aceleraram políticas de IA própria após verem a dependência de APIs americanas. O Brasil announced em janeiro de 2026 um fundo de R$ 5 bilhões para desenvolvimento de modelos de língua portuguesa.
Novo campo de competição: A disputa entre "IA ética" e "IA militar" pode criar um duopólio de facto, marginalizando players regionais que não conseguirem escolher lado.
Talent drain: Os melhores pesquisadores latino-americanos em IA continuam sendo atraídos por salários oferecidospelas big techs americans, incluindo contratos de defesa.
"O que happening é uma nova Guerra Fria da IA, mas dessa vez o divisor não é capitalismo vs. comunismo — é open AI vs. restricted AI. A América Latina precisa definir sua posição rapidamente", advierte Sofia Ribeiro, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de São Paulo (ITA).
O que esperar
Nos próximos meses, several desenvolvimentos devem ser observados:
Anúncio formal do Pentágono: A AANI deve publicar um RFP (Request for Proposals) formal para provedores de IA até o segundo trimestre de 2026.
Resposta da Anthropic: A empresa pode buscar parcerias mais fortes com aliados europeos, possivelmente expandindo sua presença no Brasil via acordos com o setor financeiro.
Pressão regulatória: O Congresso americano pode aprovar legislação obrigando transparência em contratos de IA entre startups e defesa, beneficiando empresas com políticas mais abertas.
Consolidação: Movimentos de M&A devem acelerar, com big techs adquirindo startups de IA safety para mitigar riscos reputacionais.
Para leitores da RadarDeIA, a lição principal é clara: a fragmentação do ecossistema de IA entre usos comerciais e militares não é apenas uma questão americana — ela redefinirá como a tecnologia será regulada, financiada e exportada para mercados emergentes nos próximos cinco anos.
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