Senadores pressionam agência federal por divulgação obrigatória de consumo elétrico de centros de dados
Dois senadores americanos — a democrata Elizabeth Warren e o republicano Josh Hawley — enviaram nesta quinta-feira uma carta à Energy Information Administration (EIA), agência do Departamento de Energia dos EUA, exigindo a criação de regras que tornem obrigatória a divulgação anual de consumo de eletricidade por centros de dados. O pedido ocorre em meio à explosão no uso de inteligência artificial, que transformou a infraestrutura digital em um dos setores de crescimento mais acelerado no consumo energético do país.
A nova fronteira do consumo energético americano
Os centros de dados representam hoje aproximadamente 4% do consumo total de eletricidade nos Estados Unidos — o equivalente ao consumo residencial de cerca de 35 milhões de famílias. Com a adoção massiva de modelos de linguagem, ferramentas de IA generativa e aplicações de aprendizado de máquina, projeções do setor indicam que essa fatia pode duplicar até 2030.
A situação financeira do setor ilustra essa expansão sem precedentes. A Amazon Web Services (AWS) — líder absoluta do mercado de nuvem com 32% de participação global — planejou investimentos de capital de US$ 148 bilhões em infraestrutura em 2024. A Microsoft alocou US$ 50 bilhões em seu ano fiscal de 2025 exclusivamente para construções de data centers. A Google Cloud, com 10% do mercado global, comprometeu-se com US$ 12 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2025.
"Estamos essencialmente construindo uma nova indústria de base sobre uma infraestrutura elétrica que não foi projetada para esse tipo de carga", declarou um executivo sênior de uma das principais operadoras de nuvem, em condição de anonimato.
O histórico por trás da pressão regulatória
A iniciativa de Warren e Hawley não surge no vácuo. Em 2023, a International Energy Agency (IEA) alertou que os data centers globais consumiram aproximadamente 200 terawatts-hora (TWh) em 2022 — mais do que o consumo total de eletricidade do Irã. O relatório também apontou que, sem intervenções significativas, as emissões de carbono do setor poderiam quadruplicar até 2026.
Anteriormente, em 2020, o Congresso americano havia aprovado a Energy Innovation and Carbon Dividend Act, que não abordava especificamente infraestrutura digital. A ausência de dados granulares sobre centros de dados tornou-se um ponto cego regulatório cada vez mais insustentável à medida que Big Techs expandem suas pegadas físicas.
O que a regulamentação propõe — e o que isso muda
A carta dos senadores pede que a EIA implemente requisitos de divulgação anuais que incluam:
- Consumo total de eletricidade em megawatts-hora
- Power Usage Effectiveness (PUE) — métrica que mede a eficiência energética do centro
- Participação de fontes renováveis na matriz elétrica utilizada
- Consumo de água para sistemas de refrigeração
- Capacidade instalada em megawatts e servidores operacionais
A proposta também contempla a segmentação por porte dos estabelecimentos, permitindo que instalações menores tenham compliance mais simplificado, enquanto grandes hyperscale data centers (com mais de 10 MW de capacidade) enfrentariam requisitos mais rigorosos.
Implicações para o mercado de tecnologia
Se implementada, a regulamentação representaria uma mudança estrutural na forma como o setor divulga seus indicadores ambientais. Atualmente, apenas empresas de capital aberto são obrigadas a reportar certas métricas de sustentabilidade sob as normas da SEC (Securities and Exchange Commission) — e mesmo assim, com flexibilidade considerável.
A pressão regulatória pode acelerar uma corrida por eficiência que já está em andamento. A Meta revelou em seu relatório de sustentabilidade de 2024 que investiu US$ 8,3 bilhões em infraestrutura de IA, com foco particular em sistemas de refrigeração mais eficientes. A Microsoft alcançou um PUE médio de 1,18 em seus novos data centers, comparado à média setorial de 1,58.
América Latina no radar: oportunidades e desafios
O debate americano tem reflexos diretos no mercado latino-americano de centros de dados, que cresceu 23% em 2023 e deve movimentar US$ 9,8 bilhões até 2027, segundo projeções da consultoria Grand View Research.
O Brasil concentra aproximadamente 40% da capacidade instalada da região, com São Paulo como principal hub. A Argentina, o México e a Colômbia emergem como mercados secundários de alto crescimento. Operadoras como Ascenty (do grupo Brookfield), ODATA e Setter expandem agressivamente suas operações no continente.
"Os reguladores latino-americanos estão observando atentamente o que acontece em Washington. Se os EUA implementarem transparência mandatory, é questão de tempo até queVeNTUrA países como Brasil e México sigam o exemplo", analisa Marina Campos, Diretora de Políticas Públicas do Internet Society Brasil.
A regulamentação americana também pode influenciar decisões de localização de novas instalações. Operadoras que buscam fugir de requisitos de divulgação onerosos podem priorizar mercados com regulações mais brandas — embora essa dinâmica esteja mudando rapidamente.
O que esperar: próximos passos e cenários
A EIA tem 90 dias para responder formalmente à carta dos senadores. Espera-se que a agência inicie um processo de elaboração de regras (rulemaking) ainda no primeiro semestre de 2025, com período de comentários públicos seguindo nos meses subsequentes.
Dois cenários emergem como mais prováveis:
Regulamentação escalonada: A EIA adota requisitos progressivos, com divulgação voluntária nos primeiros dois anos e tornandose mandatory a partir de 2027. Esse é o cenário favorito da indústria.
Legislação complementar: Senadores usam a falta de ação da EIA como argumento para uma lei direta do Congresso, potencialmente com requisitos mais rigorosos.
Indicadores para monitorar
- Resposta oficial da EIA nas próximas semanas
- Posicionamento da indústria: a Data Center Coalition e a Cloud Infrastructure Coalition devem publicar manifestos em resposta
- Audiências no Senado: Warren e Hawley convocaram sessões para examinar o tema em março
- Expansão na América Latina: aquisições e novos lançamentos de data centers em São Paulo, Querétaro e Bogotá
A pressão por transparência energética sobre centros de dados marca uma inflexão na relação entre tecnologia e sustentabilidade. À medida que a infraestrutura digital se torna pilar central da economia global, a exigência de accountability ambiental deixa de ser tendência e se transforma em imperativo regulatório. Para a América Latina, que assiste à expansão acelerada do setor em seus territórios, as consequências dessa transformação serão sentidas por décadas.